terça-feira, 31 de maio de 2016

Poeminha Cegal

Nem todo alfabetizado em braille tem bom tato
nem todo cégo já se acostumou a ser chamado de ceguinho
nem todo desprovido de visão é desprovido de vida
nem todo "invisual" tem boa memória auditiva
nem todo não enxergante é héteropraticante
nem todo bengalante faz massagem ou toca violão, sanfona ou berrante
cegos ou enxergantes, somos todos particulares e universopertençantes

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

No Automático

3 da manhã; a música ensurdece os demais sentidos. Estamos ali, em pé, pro sono
não dar pé. Cada um em seu celular, eu sem do ouvido poder enxergar o que
vibrava. Penso na pergunta da moça do aeroporto na ida: "Alguém mexeu na sua
bagagem sem altorização?". E se eu responder, só de sacanagem: "que eu tenha
visto não."? Fico ali, no silêncio que precede qualquer atitude, pensando se ela
ri de canto de olho, faz sinal de curti ou olha com cara de "e agora, Jozé!",
enquanto procura o radinho. "Qap, na escuta, Charlie Bravo, aqui um delta victor
visual bland que não sabe se mexeram em seu volume". Opa, peraí, em meu volume
ninguém mexeu! Não, jamais aumentaria o tom. Me renovariam o script de perguntas
- na verdade só era em ordem aleatória. Uma comissão de 3 supervisores decidira
por abrirem a mala. E se não der tempo de embarcar? E se nada lá encontrarem?
Algum movimento me puxa pro presente: o da minha esquerda aproveita que todos se
levantaram pro aplauso e anuncia a partida. Alguém o convence a ficar, desisto
de também ser instado a não ir. Outra banda ensurdece qualquer resquício de
conversa, até o gelo do copo seca. Já no check in, só o que consegui responder à
pergunta sobre minha bagagem foi "Não.". O momento não era pra piada; álito
pegajoso, cara quase serrada, ouvido ainda com zumbido da música em tom
verborragido - opto pelo script mais célere e garantido; no automático.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Entre a Luz e a Consolação

O braço era bom de se pegar, me dirigia com simplicidade segura. Na terceira
espera pra abrir, Alguém dá um espirro estrambólico; rimos na mesma hora e tom.
Começa algum diálogo, descubro que originalmente estávamos indo em direções
opostas. Os pingos engrossam quando me indica o piso tátil da Paulista,
provavelmente te perderei de vista. Curiosa, Matrix ou altruísta?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Loteria

Esse negócio de Megasena acumulada atiça até quem acha que nenhum jogo é fácil.
No trabalho vai ter bolão, já é quase tabu minha não participação. Se não tenho
nem uma cor nem um número da sorte, imagina 6. Depois eles ficam fazendo planos,
calculando juros, fazendo promessas de um mundo melhor, enquanto eu tento
terminar o serviço antes pra já ir de roupa trocada pra academia. No caminho
mais gente falando do prêmio e teorias conspiratórias; a tv mostra os números
que mais e que menos saem. Será que ela jogou? E ele? Boa, talvez dê pra achar 6
números marcando os dias dos mesversários de meus relacionamentos mais
duradouros. Empaquei no 3º ou 4º, somaria os 2 primeiros e só faltaria um. E de
repente alguém me cutuca dizendo que dava pra ir, mas sentei no meio-fio e
calculei: qual a probabilidade de todas essas coincidências serem sorteadas?
Apelei para a surpresinha, não contei pra ninguém de minha passada na lotérica.
E se o pessoal do bolão me acusasse de traidor? E os mendigos, quando
descobrissem, pediriam cheques? Andaria de blindado, como cantor famoso, sem
sucesso engatilhado? Me mudaria pra Pasárguida? Dormi de cuca cheia, acordei de
bolso vazio: todos estávamos um bilhete mais pobres; alguns 2, já pensando na
próxima chance.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Augusta

Da Paulista vinham os skatistas, da Frei Caneca os atrevidos e as passistas. Os
de andar firme ressurgiam da Consolação, gente que mora pra lá do Minhocão; a
baiana da trufa, o Tanaka do macarrão. Gente resando, olhando pro chão; outros
caminhando, de latinha na mão. A turma de Tihuana, os do rock e jaquetão - tarde
da noite, em pleno verão. A tribo do reggay, a do movimento neocristão. As
luzes, as vitrinas; as propostas indecorosas, as buzinas. As mesas na calçada,
as calçadas sem cadeiras. As disputas de som, um cheiro do bom. Pizza, hotdog ou
japonesa - na mesma calçada sem mesa. Gente subindo, gente descendo; gente só
ouvindo, a roda de violão a despistar o barulho do trânsito. O papo fluindo, a
noite se indo. E ontem o que vi foi a mesma gente, descendo e subindo - dentro
de seus carros, o motor tinindo. Liberaram a via, a calçada agora é quase vazia.
Edifícios vêem o sol cada vez mais cedo. Um brinde de cerveja achada aberta no
fundo da geladeira à especulação imobiliária

terça-feira, 7 de julho de 2015

O Espirro

Um espirro reprimido
o ouvido tranca
o vidro embassa
o farol de cor não passa
a recepcionista faz cara de palhaça
o cartão dá pirraça
é bar que não vende cachaça
é copo, é taça
qualquer barulho é ameaça
porque o ouvido tranca
o som ao redor não passa

segunda-feira, 1 de junho de 2015

06

Pois então que despenque junho
nova folha arrancada
com direito a lazer, saúde, trabalho e algum troco
em festas juninas, nas quase vazias esquinas
uma nova caminhada, com os velhos calçados
a orquestra a tocar, como quem joga baralho
a lista em branco do mercado, esperando algum recado
que seja bom, que venham noites de orvalho
que 30 dias são pouco
pra esquentar o teu princípio de inverno
e que tudo mais
que não seja de terno

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Lugar

Me chame pra qualquer lugar
que tenha música boa
mas em altura suficiente
pra com gente boa conversar
se não der pra conversar
mas der pra dançar
me botarei a sensualizar
conforme o nível da Cantareira
o robozinho na pista vai adentrar
se a piada for boa, me esforçarei pra continuar
e se não for caso
nem de rir, nem de dançar, nem de conversar
me chame pra qualquer lugar
em que teus braços sejam lar

domingo, 25 de janeiro de 2015

SP 461

eta Sampa quatrocentona
tão na vanguarda, tão na carona
congestionada, apressada, ainda há pouco quase desvairada
nos campos improvisados de meia e camisa na mão
das alamedas chiques em pleno apagão
nas batalhas verbais dos currais, das quentinhas a 2 quase Reais
na frieza das megaestatísticas
no calor de teus fornos, de pizza e de gente
das garoas que agora rareiam
das sabiás que insistentemente ainda gorjeiam
dos cachorros com papai e mamãe
dos perdigueiros e ratos a brotarem dos bueiros
das guias rebaixadas, das calçadas de Cabul
das gentes solidárias, das solitárias, das libertárias e até das reacionárias
dos que riem da situação, dos que blasfemam de bíblia na mão
do piso tátil na Paulista, dos desníveis a perder de vista
da fila pra estacionar, só não menor que a do pão
do boliviano que se deu bem, do haitiano que se coça no porão
da mulata do Vai-Vai, do albino da Vila Alpina
das padarias Gourmet, das que nem vendem pão
da pizza jamais com catchup, do chope inflacionado de teu metro nada quadrado
Samputada, Sampilhada, Samporrada
de você nos embriagamos mais um ano
bela engarrafada #sp461

domingo, 7 de dezembro de 2014

Dedos

Roubaram meus documentos, não mais tinha identidade
clonaram meu cartão, fiquei sem limite
era cabo de guerra com meus cabelos, perdi a cabeça
meus dentes ganharam intervalos, fiquei sisudo
minha bengala era um bambu, mas rima boa não havia
almoçava gargalos e canudos
minhas mãos, intocáveis de sujeira, eram então analfabetas
camas retas eram um luxo raro; se macias, dignas de um selfie
mas em meus sonhos você existia
e eu te emprestava meus dedos carcomidos
pra gente fazer poesia

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

3.0

Aos quase 30, descobri que ser cego é ser eu mesmo, como sempre me fizeram e me fiz ser. No terceiro decanato aprendi que a vida é um prato,
do qual só degusta quem pergunta ou se faz ouvir. Entendi que não adianta reclamar a presença do outro sem também se fazer presente. Nem
todos os momentos são felizes, mas com alguma vaidade serão esses que perdurarão com mais nitidez e intensidade na linha do tempo. Existem
os que te admiram, os que te querem bem, os que te invejam, os que não batem com atua energia ou nada a ela acrescentam. Nem todo olho
vermelho é resolvido com colírio. Uma idéia anotada vale mais que meio café. Histórias tristes podem ter finais felizes e vice-versa. Não
adianta querer abrir os olhos de quem dorme, fechar os de quem sempre viu. Algumas cascas podem ou devem ser quebradas. Imprevistos me
agradam, desde que sejam supostamente melhores que o script original. Acho que gosto de São Paulo, também de São João, como na música do
Legião. Não preciso de um milhão de amigos, só quero os que também me querem por perto. Quero uma casa no campo, com vista pra Paulista. Sou
um curitibano estranho: dou bom dia até pro elevador vazio, faço amizades de um dia. O atraso é quase inevitável, uma hora os carros param
ou alguém me chama. Se preocupar por antecipação é criar imaginárias chances de dar merda. Nunca haverá tempo suficiente pra se ler todos os
livros e aprender todos os caminhos que ouço falar. Nunca é tarde pra incorporar novas rotas e idéias. Todo carnaval tem seu fim. Todo fim é
um recomeço, daí ser tão parecido com o anterior. Todo aniversário é vida, toda vida é a expressão de quem se permite viver. Agradeço
àqueles que da minha fazem parte - aos de Curitiba, Sampa ou Marte

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Chegada na quebrada da noite

O ônibus vem vazio, macio. Ainda que eu insista não carecer, o cobrador
e sua mão pesada me conduzem até a calçada do ponto: um corredor
estreito para os humanos, um vaivém paralelo de barulhentos
biarticulados quase que a abraçá-lo. Nenhuma alma respirante, pra me
puxar feito barbante, em caso de algum desatino mais agravante. O ouvido
cega, os pés dão paços milimétricos para frente à procura de algum poste
ou piso tátil, enquanto um roncar mais grosso quase deixa minha bengala
não mais retrátil. Respiro fundo; o ar vem impregnado de cigarro
paraguaio e algum destilado químico. O nóia mais nóia praticamente late
que sabe de onde venho, me mostra o outro lado da rua num ziguezaguear
ligeirin. Raspo a mão numa lixeira, me despeço já quase no fim. Demora
muito não, já tô no meu portão. E ele pra onde vai será, assim sem
nenhuma chave na mão? Boa noite quebrada, ou já bom dia; tamo junto
nessa travecia

domingo, 1 de junho de 2014

Foi um Frio que Passou em Minha Vida

Era um frio que fazia vibrar entranhas e estranhas, uma súbita vontade de chegar
em casa e abraçar todos os cobertores possíveis. Assim mentalizei, mas a
impressão era de que nada naquele momento faria passar tamanha sensação de
desamparo. Lembrei dos imigrantes aitianos desembarcando quase sem roupas na
Barra Funda, senti arrepios por eles. Me imaginei tomando sopa debaixo de alguma
marquise, as pontas dos dedos ficaram cegas. Em fim, mudou a música, a cadência
do pensamento. De repente já era fim de noite. O vento continuava soprando,
agora de todas as direções, e eu sem saber pra onde olhar. Liberdade ou tontura.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Coração a 30 graus

Aos quase 30, pareço querer concluir que o coração é um tic e um toc, que assume
diferentes compassos conforme o jogo dos dados varridos. Diz o pulsante que
existem diversas formas de se gostar - do toque, do olhar, do luar. Aí vem a
paixão e bota pra sambar todos esses compartimentos, às vezes até encaixando
pelo tempo certo. Nessas diversas formas com que o coração se permite
fragmentar, parece que alguns compartimentos são privativos - ou admitem um
único cohabitante. Nada se conclui mas, se os compartimentos estiverem bem
acomodados, o texto flui. E é pra lá que eu fui. (filosofias de uma noite
turquesa de verão, com ventilador e muito mate gelado - era o que a geladeira
tinha a oferecer

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Explorações

Queria se jogar, mas não sabia a altura
Queria se esfregar, mas não sabia a testura
Queria cheirar, mas não sabia da compositura
Queria as orelhas encostar, mas não sabia a temperatura
Então lentamente pôs-se a dedilhar, tanto quadro como moldura
e assim o desenho ganhou contornos, alma e envergadura; esqueceu-se de qualquer amargura

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Os Outros

Saía de um compromisso, no atraso já quase cotidiano, e seguia para outro - esse
sim indispensável, por garantir o sustento no final do mês. Dormira um sono
agitado na noite anterior, mas consegui chegar até a academia pensando no
dinheiro jogado fora, na necessidade de algum apego ao corpo pra de, alguma
forma, minimizar o ponto perdido na caça pelo fato de não enxergar - ter algum
assunto a prender a atenção de quem seguro o braço também ajudava. Mas naquele
intervalo de tempo poucos braços apareceram, as únicas palavras que eu às vezes
ouvia era um "pra direita, pra esquerda". Me enrosquei em todas as obras
possíveis, a cada passo imaginava cones e cavaletes, britadeiras e areia.
Buracos se sucediam, num deles quase o pé ficou e a perna continuou. Desvia dali
e daqui, por vezes parecia que os carros, sempre tão velozes, estavam a poucos
centímetros daquele corpo que andava de forma mecânica: a perna direita, o braço
esquerdo batendo a bengala, a perna esquerda, o braço direito - e assim
sucessivamente até parar num poste ou amontoado de lixo. Tropeço num pano ou
cobertor encardido, a partir de então, além das britadeiras imagino todos os
moradores de rua me seguindo. Um desnível me faz desistir também da pressa, era
preciso fingir alguma calma. Latas móveis e barulhentas brotavam de todos os
lados na próxima esquina, aproveitei pra tentar ver as horas no celular, mas o
aparelho não respondia a nenhum comando. Achei perigoso ficar ali, acariciando o
visor em busca de alguma palavra - agora, além das britadeiras e mendigos,
trombadinhas me olhavam com cara de próxima vítima. O barulho parou, tomei
impulso e só percebi que traçara uma diagonal quando demorei a encontrar a
sarjeta. Nela tive vontade de ficar, quando meus pés sentiram a água parada e
fétida no exato momento em que meu pulso roçou uma árvore e começou a arder.
Ainda meio atordoado, procurei encontrar o sentido da rua de maior movimento e
segui em uma caminhada quase uniforme até o próximo orelhão em que minha cabeça
se acomodou. Tiro do gancho, escuto o "tuuuu" comprido e rio, talvez de
desespero. Penso em ligar pra ela, mas já não tinha mais clima ou motivo. O
gosto da fumaça me enoja um pouco, mas puxo o ar e finjo tragar um longo
cigarro. Sigo a caminhada, na próxima esquina em fim um braço falante e emotivo.
Me contava da vida difícil no sertão, do irmão alcoólatra, da gravidez
indesejada, da tia com câncer. Uns 13 minutos depois, a mão pequena apertou a
minha e aí cada qual seguiu seu caminho. Faltava só mais uma quadra, ali eu já
sabia o sentido das ruas e o percurso de olhos fechados - algo me fez recuperar
a segurança. Cheguei ao meu destino, o povo simpático da recepção me fez tentar
retribuir o sorriso. O ar-condicionado já amenizava meu suor, aos poucos os
demais sentidos foram voltando. Não sentia fome, parecia não haver nenhuma
notícia triste de alguém da família ou próximo. Nada como a desgraça alheia pra
nos reconfortar e fazer sentir vergonha dos nossos reclames.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Uma pequena enchurrada de palavras

Lá fora o mundo vertia em pingos, aqui dentro nada. De repente uma voz - quase
um latido - interrompe o chiar da água na pista. Bradava talvez contra o
capitalismo, os pecados capitais, os gastos com a copa, a proibição dos
rolezinhos, o desalojamento das famílias da Nova Palestina, no extremo da zona
sul paulistana. Os reclames prosseguiam, mas eram tão exaltados quanto
ininteligíveis. Um clarão, um barulho ensurdecedor, passos apressados e
novamente só o chiado da água. A paz voltava a reinar, me vi submerso novamente
no expediente. Às 19, expremido entre um cotovelo e outro, senti cheiro de
cachorro molhado e embarquei rumo à Consolação: antes uma sexta chuvosa a uma
segunda azul.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Fim de noite, de mês ou de ano

Felicitações de bom novo ano, churrascos, fotos de piscinas e outros afins. Como
se estivesse na praia, esqueço do 3G e vou até a varanda sentir a brisa. O vento faz os
badulaques do vizinho balançarem, não sei se folhas se mechem. Um segundo é
nada, as horas nunca param. O vento deve parar antes do fim da noite, mas o
tempo avisa que é uma das últimas do ano presente. Foi mesmo um presente?
Encontros, desencontros, reencontros. Dias de muito trabalho, dias de sofá e
cafuné. Dias de silêncio na sala, outros de samba no pé. Noites de sono
tranquilo, madrugadas de enlouquecer o mostrador do celular. Alguns dias
burocráticos, outros entardeceres totalmente fora do script. Noites de
verborragia, manhãs de lingua vazia. Que os bons ventos continuem soprando, que
os badulaques continuem seu balanço. Que venha 2014, com muita paz e avanço.

sábado, 30 de novembro de 2013

Marcianita e a fruta azul

Seja pelo pouco que te conhecia, seja pelas palavras que um pro outro trazia. A
expectativa do reencontro me fez relembrar do passarinho verde, que alguma
alegria trazia. A noite, contudo, foi do azul: por que assim não poderia ser a
blueberry? Será mesmo que não existe fruta azul? Tantos questionamentos em
comum, quantas vivências coincidentes. Em você me vi refletido, em teu peito me
senti crescido. E eu, com minhas ilusórias convicções, quase digo que fui
traído: achava que ficar com outro igual (cego) era mais comodidade que
afinidade. Aí veio Marcianita, a brincar de ri e agita. Será Marte azul, será
que lá tem palafita? Acho que sou de Marte, acho que nas minhas histórias muitas
vezes será parte. Viva o azul e todas as outras cores, a Juliana e todos os
outros co-autores.

sábado, 21 de setembro de 2013

Caçando no escuro

Finjo alguma pressa, mas ela parece não se importar. Me guia até o 5º obstáculo,
dou alguns passos e subitamente penso que poderia voltar e molhar o bico. Subo o
degrau como se conhecesse o recinto, olho fixamente para o balcão e balanço meu
cabo guia. O garçom me avisa das notas do troco, pego a latinha e me ponho na
calçada. A mesa da esquerda me convida pra sentar. Por alguns instantes
mentalizo a mesa dela, mas segundos depois, já sentado, pude reparar que eram um
grupo grande, e que ela estava lá na outra ponta. Talvez na ida ao banheiro a
gente se esbarrasse? Será que também me olhava? A bexiga demorou a apertar, a
voz sumiu do meu horizonte. Por noites e até com sol passei naquela esquina, mas
nunca mais a encontrei na multidão.