domingo, 16 de setembro de 2012

Desejo não tem cor

Queria estar naquele Pub cinza, tomando um Black e ficando red, ouvindo um
blues, Hard Core ou um samba de preto velho. Só não ouço cores

sábado, 15 de setembro de 2012

Blinder

No Blinder, o chat da cegolandia:
- Você é alta?
- Tô voltando da casa do Zoião, só Black e Ice. Tô altíssima!
- Tua voz lembra a da Katia Flávia.
- Como ela é?
- Conheço aquele corpo todinho, mas não sei descrevê-la!
- Conhece biblicamente?
- E paganamente também. Escuta, qual tua idade?
- Trinta e lá vai pedrada.
- Pedrada para cima ou para baixo?
- Bem, sou fortinha, então acho que para os lados.
- Adoro! Qual teu peso?
- Te garanto que você me ergue, me larga e me ergue de novo!
- Uhu! Tô na tua cola, gatolha! Como são seus olhos?
- Veja como os seus.
- Adoraria ver seus olhos nos meus!
- Isso é poético.. Gostei.
- Isso é desejo, pitchu. Conta mais. Quero te ler em braille.
- Com quantos pontos se faz um bom braille?
- Me fez cócegas só de pensar. Um arrepau no pil!
- Eita trocadalho do carilho, batido mas bem lembrado.
- Sabia que a primeira amnésia a gente nunca esquece?
- Nem por foto a gente lembra.
- O que os olhos não vêem os outros contam.
- Bem dito, mas só contam o que julgam importante.
- Então somos filtrados de muita coisa?
- Yes, penso isso.
- Merece um beijo. Segura aí: smaakt!
- Beijo pelo celular é meio gozado.
- Isso é só uma prévia, Tchu. Te farei fechar os olhos ainda mais!
- Qual o tamanho da tua bengala?
- A social ou a de trote diário?
- Você tem duas, é?
- Até três, quase um adultério.
- Fiquei com medo. Você é uma figura!
- E você é um álbum!
- Meenas, pleasfavore! Nessas horas eu preferia ser surda a cega.
- Desculpintão. Aperta o três e até mais não ver.
- Bestão! Me liga, te gosto.
- Bom dia pra você também!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Recordações para perder de vista

Os olhares dos garotinhos, porque eu andava de braços dados com meu irmão; o dó
das velhinhas e criancinhas; os escravos do servo curandeiro; as desconexões
quando eu revelava no bate-papo a desnecessidade da foto. Só lembro dessas
coisas quando voltam a acontecer, então não mais as procuro dentro e fora de
mim.

domingo, 12 de agosto de 2012

A regência da rede

Ainda no subsolo do prédio, me deu na telha o seguinte: Nem em casa consigo ficar sozinho. Fico tentando achar as letrinhas no
touchscreamming e depois me reconfortando na vasta botãozeira do computador. Compartilho o que penso, com base ou interpretações
supostamente hilariantes daquilo que consegui absorver entre o falatório que veio antes e depois do meu. Entram também na receita os fatos
do jornal, os retratos falados do cobrador, as conversas do vizinho no hall, o forró que tocava no carro que ia em direção ao reduto do
samba, as janelas que abrem e fecham e são só barulho. Pra poder processar todo esse caleidoscópio e poder reter na rotina da retina, que
nunca me regeu, é preciso tempo de manobra para respirar, acessado com o botão "off-line", ao lado do relógio.
Aí dou uma breve desligada no celular e no computador, pra poder falar com meu interior. Por isso imploro: só não botem rede na minha
varanda!

domingo, 5 de agosto de 2012

Bixiga é alegria

Coisas do Bixiga: passo apressado pelo boteco e me convidam pra um churrasquinho
que tava rolando ali mesmo; já na Achiropita a tiazinha da barraca me dá uma
Fogazza a mais porque já me viu subindo ladeira com o Tocha; o Tocha, morador
das calçadas da 9 de Julho, ontem me ajudou a pegar o ônibus e pela sétima vez -
e como sempre fez - recuzou o troco que lhe ofereci. Bixiga é alegria, como
dizia o samba da Vai-Vai!

terça-feira, 31 de julho de 2012

Por entre os prédios de nós

Ontem me contaram que os ensaios da Vai-Vai esse ano já serão na Barra Funda,
hoje que o Bar da Árvore, com seus pastéis, espetinhos e cerveja trincando,
virou bombonier. A Augusta ainda sacode, mas ameaça se transformar num quintal
só de concreto e vidro. Que venha logo a estação 14 Bis, porque tudo é
passageiro.

Já experimentou pensar de olhos fechados?

Em um estabelecimento qualquer, dou uma nota de R$20 para pagar algo que custava
R$13. Colocados aqueles 2papéis de mesmo tamanho na minha mão, pergunto qual a
de R$2 e qual a de R$5, e a moça reage com perplexidade: "Como você sabe que tem
uma de 2 e uma de 5?". Ora pois, já experimentou pensar com os olhos fechados?
Uns dirão que a concentração pode aumentar, mas não sei se concordo - porque
nunca pensei de olhos abertos - e não é sobre isso que eu pretendo falar nesse
momento. O que quero expor é que se o troco é de R$7, não há outra combinação
possível com duas notas. Talvez, olhando para as cédulas, uma simples soma faz
com que não se tenha que matutar sobre isso, mas é só mais uma forma básica de
conhecimento ensinada na escola. Vale dizer que Essa "admiração" quanto ao fato
de um cego adivinhar o valor das notas não acontece só com pessoas que não
tiveram acesso a uma boa formação. Aqui poderiam ser abertos inúmeros
parênteses, seja sobre a qualidade de nossa educação ou sobre como os "normais"
(olhe bem para as aspas) observam os "não enxergantes" (essa com contribuição de
uma amiga do trabalho, risos). O que pretendo concluir é que muitas coisas podem
ser feitas de outras maneiras, seja no sentido contrário ou com o uso de outros
sentidos. Atravessar uma rua só pelo barulho dos carros ou perceber que existe
uma farmácia só pelo cheiro que vem lá de dentro parece algo igualmente
sobrenatural, mas só porque talvez nunca se tenha tentado ou precisado. Quanto a
trocos mais complexos, avenidas de duas mãos ou farmácias escondidas dentro de
um MC Donald's, prefiro deixar para os próximos capítulos, ainda que nada seja
impossível quando se consiga ver algum caminho.