Depois de passar horas em pé, recebendo flores, ouvindo conselhos, orações e
lamentações, não via a hora de se deitar. Era um estúdio pequeno, próximo ao
metrô e ao escritório em que trabalharam juntos pelos últimos dez anos. Da porta
de entrada já se avistava a cama, que naquele dia encontrava-se desarrumada. Nas
paredes quadros abstratos, araras com roupas penduradas, a televisão de
proporções avantajadas, a gaiola vazia e o espelho. Despiu-se, ensaiou um bocejo
e Esparramou-se numa cama demasiadamente grande. Nenhum canal de televisão foi
capaz de reter sua atenção por mais de alguns segundos. Desligou o aparelho e
colocou-se próxima à janela, que estava entreaberta. Garoava, pingos brotavam do
céu e de seus olhos. Sentiu vontade de seguí-los, numa viagem de aproximadamente
45 metros. Se seu parceiro teve a coragem, por que ela não teria? Será que se
encontrariam lá em baixo, ou ele conseguira convencer o porteiro celestial de
que foi um mero acidente? Quanta perspicácia em partir sem sequer se despedir,
quanta covardia em abandonar tantos projetos, angústias e sonhos em comum. Um
pensamento a perturbava desde a primeira revista, em busca de alguma carta,
e-mail ou outro sinal: o que ele não quis dizer em palavras, mas disse com a
queda? Lembrou-se do carinho que ele fazia em seus pés descalços, dos beijos
demorados na última ida à praia, das caricaturas que colocava por debaixo da
porta. Tudo aquilo não mais fazia sentido? Fechou bruscamente as encardidas
cortinas ao lembrar de que suas roupas estavam no sofá cama, onde despencou sem
pestanejar. Quem mais se importava com sua nudez, quem mais notava seus lapsos
de memória? Ainda deitada, suas mãos alcançaram a gaveta mais próxima. Escondida
entre contas a pagar, caricaturas e retratos, uma caixa com alguns comprimidos
que lhe garantiriam horas de sono, quem sabe meses ou anos.
terça-feira, 3 de julho de 2012
segunda-feira, 11 de junho de 2012
A saideira
Em um balcão qualquer paro pra pedir a saideira. O homem, ao perceber os gomos
de meu carro então dobrados e os olhos fechados, se faz de desconfiado. Digo que
não há problemas, não vou dirigir. Ele ri e me entrega a latinha. O paradoxo é
que às vezes me faço de palhaço pra me levarem a sério.
de meu carro então dobrados e os olhos fechados, se faz de desconfiado. Digo que
não há problemas, não vou dirigir. Ele ri e me entrega a latinha. O paradoxo é
que às vezes me faço de palhaço pra me levarem a sério.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Tempos
Dizem os médicos que nasci antes do tempo, mas eu não me recordo desse tempo.
Quanto menor o tempo, maior a pressa. Quanto maior um tempo, mais rápido ele
passa. Quando o tempo fecha, temporal, nem sempre dá tempo de correr. Quando dou
um tempo, de tempos em tempos lembro de você. O tempo é o melhor remédio - ele
não para, mas serve para tudo. A única certeza atemporal que tenho é de que,
quando der meu tempo, partirei sem entender em quantos tempos couberam essa
palavra.
Quanto menor o tempo, maior a pressa. Quanto maior um tempo, mais rápido ele
passa. Quando o tempo fecha, temporal, nem sempre dá tempo de correr. Quando dou
um tempo, de tempos em tempos lembro de você. O tempo é o melhor remédio - ele
não para, mas serve para tudo. A única certeza atemporal que tenho é de que,
quando der meu tempo, partirei sem entender em quantos tempos couberam essa
palavra.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Perguntas e respostas
Hoje foi o gente boa da banca quem perguntou se eu contava os passos. Respondi que agora só faltavam 417 e que se perguntasse outra coisa eu ia perder a contagem!
terça-feira, 15 de maio de 2012
Um momento feliz
O pênalti do adversário chutado pra fora, o término de uma atividade chata, a tontura da primeira tragada, a aprovação de algo que se
espera, o momento do gozo. Um momento feliz não vê cor, faz esquecer a dor, às vezes independe até de um amor - só não é algo durador, pra
que a gente mantenha o espírito voador e não se esqueça de buscar outro explendor.
espera, o momento do gozo. Um momento feliz não vê cor, faz esquecer a dor, às vezes independe até de um amor - só não é algo durador, pra
que a gente mantenha o espírito voador e não se esqueça de buscar outro explendor.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Escolhas
O natural e o urbano; o canibal e o vegano; o uniforme e o insano; a buzina, o
piano; o ópio e o Sinzano; o sacro e o profano; o baterista e o soprano; o
cotidiano e o mundano. qual o errado, qual o engano? fico é com o humano (o
maniqueísta do manicômio)
piano; o ópio e o Sinzano; o sacro e o profano; o baterista e o soprano; o
cotidiano e o mundano. qual o errado, qual o engano? fico é com o humano (o
maniqueísta do manicômio)
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Se cuida!
Enquanto eu escovava os dentes andando pela casa, chega um sms mais ou menos
assim: "hj passei lá onde te conheci. Saudades, se cuida!". Horas antes, na
minha pressa habitual, ouço um "por aqui meu jovem, corre não, se cuida"!". Na
bagagem a ser embarcada daqui há alguns dias, a mensagem: "cuidado, frágil".
Será mesmo que fulano está cuidando daquele caso? Na saída do prédio, a
advertência: "Cuidado! Ao entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se
parado neste andar". "E o flanelinha? E o avião? E a camisinha?" (trecho da
música "Cuidado", do Barão Vermelho) O flanelinha diz que o carro de quem me dá
carona estará bem cuidado, mas é preciso cuidar do tempo para não perder o vôo.
Já quanto à camisinha, é preciso cuidado ao guardá-la! Certa vez passei uma
vergonha das grandes porque o raio x acusou a embalagem metálica do
preservativo, me obrigando a depositá-lo na sestinha. E num descuido já ia me
esquecendo que falava da expressão "se cuida". Ela admite diferentes tons e
contextos: pode significar "se eu pudesse cuidava de você" (uma carta na manga
em despedidas), um sonoro "se orienta" (quando se faz algo com alguma
negligência), ou um "fica bem, vai passar ou melhorar". O "se cuida", em tom
irônico, também pode dizer algo do tipo "eu sei o que você vai fazer, então boa
sorte, vai com calma e depois se quiser me conta tudo". Em todos os casos, por
mais superficial ou descuidado que seja, demonstra alguma preocupação ou desejo
de que aquela pessoa esteja bem - até mesmo num quase sincero "vai logo, tchal e
se cuida!". Trecho da mesma música do Barão diz para ter cuidado com quem você
se envolve. Esse cuidado pode então significar tanto a desconfiança como a
necessidade de dar atenção. A falta de cuidado pode gerar acidentes ou
distanciamento, enquanto o excesso demonstra insegurança ou pode levar ao
desprezo. "cuidado! Se não você dança..", ainda diz a melodia, num tom que
provoca a vontade de sacodir o esqueleto, esteja ele descuidado ou não. Bendito
equilíbrio entre a vontade de dançar e a de cuidar. Se cuida e até a próxima
música!
assim: "hj passei lá onde te conheci. Saudades, se cuida!". Horas antes, na
minha pressa habitual, ouço um "por aqui meu jovem, corre não, se cuida"!". Na
bagagem a ser embarcada daqui há alguns dias, a mensagem: "cuidado, frágil".
Será mesmo que fulano está cuidando daquele caso? Na saída do prédio, a
advertência: "Cuidado! Ao entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se
parado neste andar". "E o flanelinha? E o avião? E a camisinha?" (trecho da
música "Cuidado", do Barão Vermelho) O flanelinha diz que o carro de quem me dá
carona estará bem cuidado, mas é preciso cuidar do tempo para não perder o vôo.
Já quanto à camisinha, é preciso cuidado ao guardá-la! Certa vez passei uma
vergonha das grandes porque o raio x acusou a embalagem metálica do
preservativo, me obrigando a depositá-lo na sestinha. E num descuido já ia me
esquecendo que falava da expressão "se cuida". Ela admite diferentes tons e
contextos: pode significar "se eu pudesse cuidava de você" (uma carta na manga
em despedidas), um sonoro "se orienta" (quando se faz algo com alguma
negligência), ou um "fica bem, vai passar ou melhorar". O "se cuida", em tom
irônico, também pode dizer algo do tipo "eu sei o que você vai fazer, então boa
sorte, vai com calma e depois se quiser me conta tudo". Em todos os casos, por
mais superficial ou descuidado que seja, demonstra alguma preocupação ou desejo
de que aquela pessoa esteja bem - até mesmo num quase sincero "vai logo, tchal e
se cuida!". Trecho da mesma música do Barão diz para ter cuidado com quem você
se envolve. Esse cuidado pode então significar tanto a desconfiança como a
necessidade de dar atenção. A falta de cuidado pode gerar acidentes ou
distanciamento, enquanto o excesso demonstra insegurança ou pode levar ao
desprezo. "cuidado! Se não você dança..", ainda diz a melodia, num tom que
provoca a vontade de sacodir o esqueleto, esteja ele descuidado ou não. Bendito
equilíbrio entre a vontade de dançar e a de cuidar. Se cuida e até a próxima
música!
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