domingo, 30 de junho de 2013

A criatura da foto

Queria conhecê-la em braille. Passadas as preliminares e a demorada prorrogação,
a conduzi até o chuveiro. Gastei todo sabonete. Achei o melhor ângulo e tirei
uma foto tátil para ler nos momentos de ausência

Na loja de eletrodomésticos

- Então o senhor procura uma tv. Mas não é pro senhor não né?
- Sim, é pra mim.
- Mas então procura uma daquelas pequenas, não precisa ser a cores?
- Não, aquela que estava anunciada com 25% de desconto. Tentei
comprar mas o site era inacessível.
- Então quem viu o site pro senhor não conseguiu finalizar a compra?
- Não, eu mesmo tentei comprar. Uso um programa que lê a tela, mas o site é
gráfico e não obedece a um padrão estabelecido por vários órgãos reguladores,
entende?
- Ah ok. Então pretende presentear a esposa?
- Não, moça, sou solteiro..
- Mas meu senhor.. Desculpe se estou sendo invasiva, mas assim, nas tuas
condições, não precisa de uma com tantas polegadas e recursos.
- Sabe o que acontece, moça? Preciso de uma com bom som e às vezes recebo gente
lá em casa pra tomar uma cerveja e assistir aos jogos do Timão.
- Ah, então o senhor bebe?! E é corinthiano..
- Sim, fico tão emocionado que até fecho os olhos na hora das penalidades
máximas!
- Engraçadinho.. Olha, desculpa tantas perguntas.. Mas se o senhor quiser
assistir ao próximo lá em casa, tem uma tv bem grande viu..
- Não vejo a hora!

domingo, 9 de junho de 2013

Domingo na rua

Falava ao celular, usava algum perfume conhecido. Era única naquele mar de latas
móveis. Quando ouvi a conversa avançar a sarjeta, sabia que era a oportunidade
certa. A rua era larga, apressei o passo com medo. Nela esbarrei, pedi
desculpas. Desligou o aparelho e perguntou pra onde eu ia. Um papo bom, daqueles
que duram umas 3 quadras. Depois cada qual seguiu seu caminho, o domingo parecia
interminável.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mudanças

Mudanças dão um medo..
Dá vontade de mudar de idéia, ainda quando a escolha não pertençe a nós
e quando o novo caminho já parece mais curto,
Aí os ponteiros mudam, nos carregando sem chance de voltar
Que o que já foi mudou de nome pra saudade,
que o agora é a mais nova realidade
Mudanças dão uma canseira, e depois esse descansar é tão intenso
que faz a gente acordar com outros olhares,
sem tanto se importar com os novos ares

terça-feira, 23 de abril de 2013

Faceando

Na cama, ateve-se a examinar todos aqueles rostos e faces que povoavam a
heartline. Um era alegre, outra cúmplice; um era parceiro, o outro apenas
companheiro; um era sereno, a outra tinha olhos de ressaca; uma era observadora,
o outro desatinado; um era pra casar (mas achava que ainda tinha muito tempo a
correr), o outro era senil; Um mexia muito a boca, outro os olhos; uma era sem
sal, o outro tão doce.. Acabou seguindo o cursor, sem saber pra onde olhar.

Ano 3.0

San Paulo (discípulo da antiga Bíblia), 19 May. O ano é 3.0. Hoje fiquei em
dúvida se comia costelinha em Tóquio ou sushi naquele arranha-céu em Nova
Aurora. Tenho me tornado assim indeciso desde que o teletransporte se tornou
acessível até aos que sobrevivem só com as maçãs distribuídas pela ONU e pela
Apple. Sou vítima do atentado G-Earth III, que destruiu mais de 15 hectares de
nuvens de informação. O chip do banco deu problema, me confundiram com um
estelionatário e me deixaram quase off-line. Consegui uma conexão clandestina,
uma das últimas não cabeadas pelo projeto Changai. Já que o sistema me impingiu
tais regras, me obriguei a falcificar G-money. Um velho robô que trabalhou
naquela churrascaria em Nova Délhi um dia deixou escapar a faca e alguns
segredos. Seu idioma era quase incompreensível, mas isso já não mais faz sentido
desde que o iTalk começou a rodar nativamente nos chips implantados desde o ano
2.17 beta. A partir de então, todos os idiomas tornaram-se compreensíveis e
todos os livros legíveis em poucos segundos. Dia desses adquiri interpretações
inteiras, capazes de serem reproduzidas exatamente no tom e na velocidade da
minha fala. Em meio às minhas batalhas internas, como a luta entre o sushi e a
costelinha, vejo que meu último canal de ligação é também monitorado. Estou com
medo, mas não acho a carinha correspondente. Ficarei off-line por mais alguns
releases, mas prometo voltar até que o último pacote de esperança seja
confiscado. É o relatório. Cuide bem de sua nuvem

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Alguma coisa acontece no meu coração

Esses quase 5 anos de Sampa me deixaram mais inquieto e friorento. Me
pergunte, porém, se estou desgostando? Vejo coisas erradas, mas as
certas me desvirtuam mais a atenção. A gente cheirosa desfilando na
Paulista me faz esquecer que existe um Tietê. Há filas, mas sou quase
preferencial, necessário. Barulhos me deixam vesgo, mas o silêncio já me
provoca uma sensação ainda mais estranha. Vi os preços subirem, a
Augusta descer, a Nova Luz nunca se ascender. Vi muitos engarrafamentos
serem esvaziados, muitos copos reaproveitados. Senti a neblina forte das
manhãs, a fumaça quente das motocas. Subi ladeira, desci de carro.
Desacreditei no caminho do taxista, pois me acostumei a andar a pé. O
Peixe Urbano me fez nadar por alguns Rios então desconhecidos. A ponte
aérea me fascinou, mas sempre acreditei chegar em casa quando via as
margens do Ipiranga. Sinto mais frio, a mente às vezes entope de tanta
informação. Ainda assim, renovo por igual período, e a união continua
quase estável.