eta Sampa quatrocentona
tão na vanguarda, tão na carona
congestionada, apressada, ainda há pouco quase desvairada
nos campos improvisados de meia e camisa na mão
das alamedas chiques em pleno apagão
nas batalhas verbais dos currais, das quentinhas a 2 quase Reais
na frieza das megaestatísticas
no calor de teus fornos, de pizza e de gente
das garoas que agora rareiam
das sabiás que insistentemente ainda gorjeiam
dos cachorros com papai e mamãe
dos perdigueiros e ratos a brotarem dos bueiros
das guias rebaixadas, das calçadas de Cabul
das gentes solidárias, das solitárias, das libertárias e até das reacionárias
dos que riem da situação, dos que blasfemam de bíblia na mão
do piso tátil na Paulista, dos desníveis a perder de vista
da fila pra estacionar, só não menor que a do pão
do boliviano que se deu bem, do haitiano que se coça no porão
da mulata do Vai-Vai, do albino da Vila Alpina
das padarias Gourmet, das que nem vendem pão
da pizza jamais com catchup, do chope inflacionado de teu metro nada quadrado
Samputada, Sampilhada, Samporrada
de você nos embriagamos mais um ano
bela engarrafada #sp461
domingo, 25 de janeiro de 2015
domingo, 7 de dezembro de 2014
Dedos
Roubaram meus documentos, não mais tinha identidade
clonaram meu cartão, fiquei sem limite
era cabo de guerra com meus cabelos, perdi a cabeça
meus dentes ganharam intervalos, fiquei sisudo
minha bengala era um bambu, mas rima boa não havia
almoçava gargalos e canudos
minhas mãos, intocáveis de sujeira, eram então analfabetas
camas retas eram um luxo raro; se macias, dignas de um selfie
mas em meus sonhos você existia
e eu te emprestava meus dedos carcomidos
pra gente fazer poesia
clonaram meu cartão, fiquei sem limite
era cabo de guerra com meus cabelos, perdi a cabeça
meus dentes ganharam intervalos, fiquei sisudo
minha bengala era um bambu, mas rima boa não havia
almoçava gargalos e canudos
minhas mãos, intocáveis de sujeira, eram então analfabetas
camas retas eram um luxo raro; se macias, dignas de um selfie
mas em meus sonhos você existia
e eu te emprestava meus dedos carcomidos
pra gente fazer poesia
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
3.0
Aos quase 30, descobri que ser cego é ser eu mesmo, como sempre me fizeram e me fiz ser. No terceiro decanato aprendi que a vida é um prato,
do qual só degusta quem pergunta ou se faz ouvir. Entendi que não adianta reclamar a presença do outro sem também se fazer presente. Nem
todos os momentos são felizes, mas com alguma vaidade serão esses que perdurarão com mais nitidez e intensidade na linha do tempo. Existem
os que te admiram, os que te querem bem, os que te invejam, os que não batem com atua energia ou nada a ela acrescentam. Nem todo olho
vermelho é resolvido com colírio. Uma idéia anotada vale mais que meio café. Histórias tristes podem ter finais felizes e vice-versa. Não
adianta querer abrir os olhos de quem dorme, fechar os de quem sempre viu. Algumas cascas podem ou devem ser quebradas. Imprevistos me
agradam, desde que sejam supostamente melhores que o script original. Acho que gosto de São Paulo, também de São João, como na música do
Legião. Não preciso de um milhão de amigos, só quero os que também me querem por perto. Quero uma casa no campo, com vista pra Paulista. Sou
um curitibano estranho: dou bom dia até pro elevador vazio, faço amizades de um dia. O atraso é quase inevitável, uma hora os carros param
ou alguém me chama. Se preocupar por antecipação é criar imaginárias chances de dar merda. Nunca haverá tempo suficiente pra se ler todos os
livros e aprender todos os caminhos que ouço falar. Nunca é tarde pra incorporar novas rotas e idéias. Todo carnaval tem seu fim. Todo fim é
um recomeço, daí ser tão parecido com o anterior. Todo aniversário é vida, toda vida é a expressão de quem se permite viver. Agradeço
àqueles que da minha fazem parte - aos de Curitiba, Sampa ou Marte
do qual só degusta quem pergunta ou se faz ouvir. Entendi que não adianta reclamar a presença do outro sem também se fazer presente. Nem
todos os momentos são felizes, mas com alguma vaidade serão esses que perdurarão com mais nitidez e intensidade na linha do tempo. Existem
os que te admiram, os que te querem bem, os que te invejam, os que não batem com atua energia ou nada a ela acrescentam. Nem todo olho
vermelho é resolvido com colírio. Uma idéia anotada vale mais que meio café. Histórias tristes podem ter finais felizes e vice-versa. Não
adianta querer abrir os olhos de quem dorme, fechar os de quem sempre viu. Algumas cascas podem ou devem ser quebradas. Imprevistos me
agradam, desde que sejam supostamente melhores que o script original. Acho que gosto de São Paulo, também de São João, como na música do
Legião. Não preciso de um milhão de amigos, só quero os que também me querem por perto. Quero uma casa no campo, com vista pra Paulista. Sou
um curitibano estranho: dou bom dia até pro elevador vazio, faço amizades de um dia. O atraso é quase inevitável, uma hora os carros param
ou alguém me chama. Se preocupar por antecipação é criar imaginárias chances de dar merda. Nunca haverá tempo suficiente pra se ler todos os
livros e aprender todos os caminhos que ouço falar. Nunca é tarde pra incorporar novas rotas e idéias. Todo carnaval tem seu fim. Todo fim é
um recomeço, daí ser tão parecido com o anterior. Todo aniversário é vida, toda vida é a expressão de quem se permite viver. Agradeço
àqueles que da minha fazem parte - aos de Curitiba, Sampa ou Marte
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Chegada na quebrada da noite
O ônibus vem vazio, macio. Ainda que eu insista não carecer, o cobrador
e sua mão pesada me conduzem até a calçada do ponto: um corredor
estreito para os humanos, um vaivém paralelo de barulhentos
biarticulados quase que a abraçá-lo. Nenhuma alma respirante, pra me
puxar feito barbante, em caso de algum desatino mais agravante. O ouvido
cega, os pés dão paços milimétricos para frente à procura de algum poste
ou piso tátil, enquanto um roncar mais grosso quase deixa minha bengala
não mais retrátil. Respiro fundo; o ar vem impregnado de cigarro
paraguaio e algum destilado químico. O nóia mais nóia praticamente late
que sabe de onde venho, me mostra o outro lado da rua num ziguezaguear
ligeirin. Raspo a mão numa lixeira, me despeço já quase no fim. Demora
muito não, já tô no meu portão. E ele pra onde vai será, assim sem
nenhuma chave na mão? Boa noite quebrada, ou já bom dia; tamo junto
nessa travecia
e sua mão pesada me conduzem até a calçada do ponto: um corredor
estreito para os humanos, um vaivém paralelo de barulhentos
biarticulados quase que a abraçá-lo. Nenhuma alma respirante, pra me
puxar feito barbante, em caso de algum desatino mais agravante. O ouvido
cega, os pés dão paços milimétricos para frente à procura de algum poste
ou piso tátil, enquanto um roncar mais grosso quase deixa minha bengala
não mais retrátil. Respiro fundo; o ar vem impregnado de cigarro
paraguaio e algum destilado químico. O nóia mais nóia praticamente late
que sabe de onde venho, me mostra o outro lado da rua num ziguezaguear
ligeirin. Raspo a mão numa lixeira, me despeço já quase no fim. Demora
muito não, já tô no meu portão. E ele pra onde vai será, assim sem
nenhuma chave na mão? Boa noite quebrada, ou já bom dia; tamo junto
nessa travecia
domingo, 1 de junho de 2014
Foi um Frio que Passou em Minha Vida
Era um frio que fazia vibrar entranhas e estranhas, uma súbita vontade de chegar
em casa e abraçar todos os cobertores possíveis. Assim mentalizei, mas a
impressão era de que nada naquele momento faria passar tamanha sensação de
desamparo. Lembrei dos imigrantes aitianos desembarcando quase sem roupas na
Barra Funda, senti arrepios por eles. Me imaginei tomando sopa debaixo de alguma
marquise, as pontas dos dedos ficaram cegas. Em fim, mudou a música, a cadência
do pensamento. De repente já era fim de noite. O vento continuava soprando,
agora de todas as direções, e eu sem saber pra onde olhar. Liberdade ou tontura.
em casa e abraçar todos os cobertores possíveis. Assim mentalizei, mas a
impressão era de que nada naquele momento faria passar tamanha sensação de
desamparo. Lembrei dos imigrantes aitianos desembarcando quase sem roupas na
Barra Funda, senti arrepios por eles. Me imaginei tomando sopa debaixo de alguma
marquise, as pontas dos dedos ficaram cegas. Em fim, mudou a música, a cadência
do pensamento. De repente já era fim de noite. O vento continuava soprando,
agora de todas as direções, e eu sem saber pra onde olhar. Liberdade ou tontura.
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Coração a 30 graus
Aos quase 30, pareço querer concluir que o coração é um tic e um toc, que assume
diferentes compassos conforme o jogo dos dados varridos. Diz o pulsante que
existem diversas formas de se gostar - do toque, do olhar, do luar. Aí vem a
paixão e bota pra sambar todos esses compartimentos, às vezes até encaixando
pelo tempo certo. Nessas diversas formas com que o coração se permite
fragmentar, parece que alguns compartimentos são privativos - ou admitem um
único cohabitante. Nada se conclui mas, se os compartimentos estiverem bem
acomodados, o texto flui. E é pra lá que eu fui. (filosofias de uma noite
turquesa de verão, com ventilador e muito mate gelado - era o que a geladeira
tinha a oferecer
diferentes compassos conforme o jogo dos dados varridos. Diz o pulsante que
existem diversas formas de se gostar - do toque, do olhar, do luar. Aí vem a
paixão e bota pra sambar todos esses compartimentos, às vezes até encaixando
pelo tempo certo. Nessas diversas formas com que o coração se permite
fragmentar, parece que alguns compartimentos são privativos - ou admitem um
único cohabitante. Nada se conclui mas, se os compartimentos estiverem bem
acomodados, o texto flui. E é pra lá que eu fui. (filosofias de uma noite
turquesa de verão, com ventilador e muito mate gelado - era o que a geladeira
tinha a oferecer
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Explorações
Queria se jogar, mas não sabia a altura
Queria se esfregar, mas não sabia a testura
Queria cheirar, mas não sabia da compositura
Queria as orelhas encostar, mas não sabia a temperatura
Então lentamente pôs-se a dedilhar, tanto quadro como moldura
e assim o desenho ganhou contornos, alma e envergadura; esqueceu-se de qualquer amargura
Queria se esfregar, mas não sabia a testura
Queria cheirar, mas não sabia da compositura
Queria as orelhas encostar, mas não sabia a temperatura
Então lentamente pôs-se a dedilhar, tanto quadro como moldura
e assim o desenho ganhou contornos, alma e envergadura; esqueceu-se de qualquer amargura
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